28 de junho de 2012
O mais difícil de começar uma viagem é se livrar da couraça
de urbanidade e poluição que, camada a camada, vai nublando o espírito e
vestindo o corpo de vestidos e saltos e uma rigidez que o trabalho, o trânsito,
os insultos, o caos exige para que não enlouqueçamos enquanto ainda chamamos
aquele lugar de lar.
Propus, para facilitar o processo, levar um chinelo na mala
e um tênis no pé, já que o tempo era pouco e a couraça devia ser removida rapidamente
para o melhor proveito das férias, nem que fosse com doses maciças de maresia e
sol!
Saímos de SP na quinta de manhã, com um tempo bom, mas frio,
de calça jeans, blusa e cachecol, uma única mala pros dois e o mínimo de
utensílios eletrônicos.
No entanto antes de chegar à Bahia ainda passaríamos algum
tempo em Confins, e, para que não ficássemos apenas zanzando de lá a cá,
esticamos para almoçar em Pedro Leopoldo, cidade natal de Chico Xavier, onde o
centro espírita Luiz Gonzaga guarda a história do começo do centro, que se
mescla com a história deste irmão querido, cujo respeito e admiração são tanto
maiores quanto mais se conhece sua história.
De volta ao rumo, chegamos a Porto Seguro com o entardecer
da quinta feira, a tempo de alugar um carro e rumar para Trancoso.
Já de cara o contraste começa no aeroporto, com cara de
grande casa de praia. Há dois caminhos que levam a Trancoso, um maior (80km)
pela estrada, outro pela balsa (40km), caminho escolhido por nós, ainda
vestidos da couraça paulistana, com todo indício de “turista que acabou de
chegar”, alvo fácil dos vendedores de toda e qualquer coisa.
Sem algo mais concreto pra nos guiar pelo caminho do que as
placas da estrada e um GPS de celular sem rede, acabamos caindo, não
propositalmente, na estrada de terra. Nada do que iremos reclamar, jamais. O
carro, pobre Uno, já não poderia dizer o mesmo...
Trancoso ainda parece, apesar das pousadas que se avolumam
na paisagem, com uma vila de pescadores, poucos quarteirões na área realmente
turística da cidade, fácil de conseguir qualquer informação. E assim chegamos à
pousada Mundo Verde, poucos quartos, administração familiar, gente muito
simpática e solícita.
Ainda travestidos de paulistanos saímos pra comer, a fome
batendo lá no fundo depois de um dia inteiro de “trânsito”. Qual não deveria
ser nossa surpresa ao sermos abordados, naqueles trajes principalmente, por um
cidadão local debulhando palavras como uma metralhadora oferecendo serviços de
guia para mostrar a cidade e seus costumes, sua história e assim foi, sem uma vírgula
sequer, por 15 minutos. Nenhum problema com o trabalho do moço, a
sustentabilidade local, ou a subsistência da família dele, mas tudo o que
procurávamos naquele momento era SILÊNCIO, algo raro e precioso nas terras do
sul de onde acabávamos de vir. Acabamos nos sentando num restaurante do
quadrado como forma de escapar do moçoilo, que ainda que não contratado nos
pediu um trocado, o qual sequer tínhamos ainda, pois a abordagem prematura não
só nos tinha impedido de pensar com clareza como também de ir ao banco.
Ele foi embora não muito satisfeitos e nós finalmente
conseguimos, desde as 9 da manhã sentar e olhar o céu, pensar e concluir que
tínhamos fome extrema, cansaço moderado e ainda vestíamos nossas roupas de
paulistanos, o que destoava redondamente da multidão.
Multidão? Corrija-se: o lugar nesta época do ano é ermo,
quase deserto. Muitas vezes fomos os únicos fregueses no restaurante, bar ou
loja, o que pra mim é a definição perfeita de paraíso!!
Alimentados de uma moqueca pra lá de boa, com arroz e pirão,
fizemos o reconhecimento da área central, o famoso Quadrado, de lojinhas lindas
e pousadas charmosas, e demos boa noite ao céu estrelado para dormir em nossa
cama de dossel e mosquiteiro o sono dos justos em férias!





Nenhum comentário:
Postar um comentário