sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Dia 11 – Santiago – São Paulo, ou impressões e conclusões
Bairro Paris-Londres
O tour
pelas vinícolas que faríamos na última manhã no país não saiu, por conta de
horários e preços. Para ir por conta, o que não é nada difícil por aqui, se
paga 7.000 pesos (mais ou menos R$ 25) o passeio. Com os tours organizados, são
28.000 por pessoa (R$ 100), ou seja, 4 vezes mais. O impeditivo do tempo foi
que os passeios costumam ser de dia todo ou no período da tarde, e o horário do
vôo nos obrigava a estar de volta ao aeroporto às 3 da tarde, entonces, como
tantas outras coisas não vistas, ficou pra próxima. Fechamos as malas, rumamos
para o aeroporto e fizemos o balanço dos últimos dias.
A janela do avião e a cordilheira ali do lado
- Companhia é tudo pra uma road trip dessas. Bons amigos que tornam as dificuldades mais leves, as estradas mais curtas e compartilham as experiências mais inesquecíveis com você não têm preço!
- São Pedro é uma cidade mágica e acessível a todos que se dispuserem a conhecer algo de diferente. Há pequenas pousadas e grandes resorts e NUNCA, mas nunca mesmo, chove por ali (o mesmo vale pra maior parte das cidades costeiras a beira do deserto);
- Muita gente fez cara feia quando anunciei que faria esta viagem, mas fomos sabendo onde estávamos nos metendo e não estava errada, nem em momento algum me arrependi, pelo contrário. A experiência de estar num lugar como o Atacama só me faz ter mais certeza de que a gente não precisa de tanto pra viver, e que aquele lugar pode ser um reflexo do mundo que iremos ter caso não desaceleremos o pé no consumo sem fim de cada dia (e do qual não nos damos conta até que não tenhamos outra alternativa se não nos virar com o mínimo). Talvez as pessoas que menos quisessem estar ali são as que realmente precisassem ir, para entender que há um ciclo de vida e que o elevador do seu prédio não sobe sozinho, que água além de acabar não vem na garrafa e ter carne na mesa e fruta na cesta não é algo óbvio em todos os lugares do mundo, mas que deveríamos ser gratos por ter esta opção, e não desperdiçá-la;
- Pena que acabou tão rápido!
domingo, 10 de janeiro de 2010
Dia 10 – Santiago
O sol já
havia raiado fazia um bocado de tempo quando finalmente conseguimos nos mexer
pra resolver o problema da véspera. Não sem antes tomar café da manhã, já que
estava incluso no pacote. Não deveria nem ter ficado surpresa quando depois de
três becos dignos de Hogwarts, chegamos à tumba de Tutancâmon para o café, ou
assim ao menos parecia. As paredes eram pintadas à moda egípcia, com
hieróglifos, sacerdotes, aves, e o que mais você possa imaginar. Lugar de dar
medo e comida também.
Felizmente,
a um quateirão dali o brasileiríssimo Blue Tree nos deu as primeiras “boas”
vindas à cidade, e o recepcionista piedoso, tomando conhecimento dos nossos
percalços, nos deu um quarto melhor do que a diária contratada, para que não
saíssemos da cidade com uma péssima impressão. A região ali se chama
Paris-Londres e as ruas poderiam se passar tranquilamente como de qualquer
cidade charmosa da Europa.
Santiago é uma cidade com 6 milhões de habitantes, portanto quase uma São Paulo. Como a idéia da viagem era fugir da civilização, e não correr pra ela, não foi com grande empolgação que começamos a percorrer as ruas do centro. O Mercado Central, uma versão bem miniatura do nosso Mercado Municipal serve peixes frescos pro almoço e muitos dos garçons falam um portunhol bem fluente, considerando o número de turistas brasileiros que vimos por ali. O assédio aos turistas que ali entram é grande então se não quiser comer desconverse, porque eles virão atrás de você mesmo assim.
Decidimos que o melhor era circular pela cidade de metrô, muito mais amplo que o nosso. Uma alternativa barata, limpa e organizada.
Santiago é uma cidade com 6 milhões de habitantes, portanto quase uma São Paulo. Como a idéia da viagem era fugir da civilização, e não correr pra ela, não foi com grande empolgação que começamos a percorrer as ruas do centro. O Mercado Central, uma versão bem miniatura do nosso Mercado Municipal serve peixes frescos pro almoço e muitos dos garçons falam um portunhol bem fluente, considerando o número de turistas brasileiros que vimos por ali. O assédio aos turistas que ali entram é grande então se não quiser comer desconverse, porque eles virão atrás de você mesmo assim.
Decidimos que o melhor era circular pela cidade de metrô, muito mais amplo que o nosso. Uma alternativa barata, limpa e organizada.
No
entanto, quem salvou o dia realmente foi Neruda, ou melhor, a casa dele (e que
virou museu) no Bairro de Bellavista, uma vizinhança boêmia que lembra muito a
Vila Madalena sem as ladeiras.
Perto da
casa de Neruda, há a preços mais salgados, mas num ambiente muito acolhedor, o
Pátio Bellavista, uma praça cercada de restaurantes, galerias de arte, lojas de
artesanato (com o famoso lápis-lazúli da região) onde eu poderia ficar toda a
tarde sem ver a hora passar.
Mas como
ainda tínhamos uma lista de coisas pra levar de volta pro Brasil, e as horas
estavam passando, rumamos para o Mall Parque Arauco, um shopping meio aberto,
meio fechado, que parece um labirinto, mas onde se encontra a maioria das redes
do país (que agora já conhecíamos de cor) e várias outras lojinhas
interessantes. O TGI Friday’s salvou a noite enquanto ouvíamos uma banda cover
tocar todos os sucessos do Coldplay na praça central da parte aberta do shopping.
6 metrôs, 2 taxis e muita, muita comida depois, nos despedimos da cidade pra
fechar as malas somente na manhã seguinte.
sábado, 9 de janeiro de 2010
Dia 9 – Tocopilla – Calama – Santiago ou “O dia da Uruca”
Calçadão de Tocopilla
Em viagens, tem sempre um dia que
é mais zicado que qualquer outro. O nosso foi este dia. Já acordamos com o ovo
virado de ter que ir embora do Dakar agora que as coisas tinham começado a
ficar boas. Numa tristeza danada demos nossos adeus, mas antes mesmo de poder
sentar no ônibus e chorar as pitangas fomos avisados pela Tur Bus que o ônibus
que pegaríamos não desceria até Tocopilla porque a estrada estava fechada por
conta do rally. Na verdade, nós entendemos com isso que éramos os dois únicos
passageiros e que eles acharam que não valia a pena descer a pirambeira da
Serra Pelada que cerca Tocopilla pra pegar os dois manés que precisavam chegar
a Calama sem falta para pegar o vôo pra Santiago. Acabamos contatando por
indicação do hotel um taxista que além de falar português e mais umas 6
línguas, já tinha viajado o mundo todo (inclusive ao Brasil, onde ele dizia ter
deixado algumas chicas chorando por ele).
Nosso Tocotaxi!
Naquelas
alturas e sem outra alternativa viável lá fomos nós no taxi preto e amarelo,
aparentemente padrão em todas as cidades por onde estivemos. Don Jorge, que era
uma cruza de chinês com italiana, dizia já ter trabalhado como pintor, mineiro,
eletricista, mestre de obras, morou na Itália, no Brasil, nos EUA, falava
inglês fluente (o que eu pude confirmar) e devia ter uns 150 anos por tudo o
que disse ter feito. Nos serviu balinhas, colocou músicas americanas dos anos
70 e foi nos contando a história do Chile, da colonização da região, do
deserto, durante as duas horas do caminho entre Tocopilla e Calama.
Nosso guia no deserto
O único senão é que o carro não tinha ar condicionado e era preto que só, então conforme avançávamos de volta para o deserto, a sensação de sauna seca era cada vez mais inevitável. Ele nos explicou sobre a extração de cobre na região, que os chineses que víamos pela região chegaram ali para a construção das ferrovias, que as cidades foram construídas ali baseadas no velho oeste americano (e assim foram esquecidas), que os mineiros ganhavam em torno de 50.000 reais por ano, mais adicionais de insalubridade, que Bernardo O’Higgins, presente nas placas de várias das cidades por onde passamos, foi o libertador do país das mãos dos espanhóis no século 18, e por aí foi nossa conversa, só interrompida quando ele renovava seu cheiro com algumas gotas de um perfume “Kenzo” comprado dos camelôs que pipocavam na avenida central de Tocopilla (o primeiro lugar em que os vimos, aliás).
O resto
do dia foi de espera no shopping e no aeroporto de Calama.
Pôr-do-sol na saída de Calama
Mas, como dia de uruca vai até o fim, tivemos que esperar uma hora no saguão do aeroporto até que nossas malas fossem trazidas para a esteira no aeroporto de Santiago, e, ao finalmente chegar ao hotel que havíamos reservado, demos conta do engodo em que havíamos nos metido. Eu já devia saber que íamos ter problemas quando vi a placa de “Welcome backpackers” na entrada, mas resolvi ter um pouco de fé na humanidade, já que era 1 hora da manhã de um longo dia de trânsito.
As fotos
do hotel e a informação vendida pelo site e pelas revistas de turismo que vimos
não tinham nada a ver com a pocilga que encontramos na nossa frente. Além do
quarto ser sujo e cheirar a mofo, tinha uma banheira para anões, que
supostamente é o local pra ser tomar banho e uma internet que só funciona na propaganda.
Fomos dormir com raiva da enganação que ainda nos sairia por R$ 103, dispostos
a resolver o problema assim que o sol raiasse.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Dia 8 – Largada de Antofagasta – Iquique – pouso em Tocopilla
Não eram
7 da manhã e todo o circo do Dakar já estava funcionando para a largada de
motos, quadris, carros e caminhões a alguns quilômetros dali.
Tivemos
tempo de conversar com os brasileiros e ver de perto os pilotos gringos dos
carros que já se enfileiravam para a largada. Uma coisa que muito nos
impressionou foi a cobertura completa da Fox Sports chilena.
Enquanto
os brasileiros eram vencidos um a um pela crueza do deserto, no Brasil, na
maior parte da mídia não especializada do país só se falava da troca do técnico
do 15 de Piracicaba e do novo corte de cabelo do Ronaldo. Novamente, impossível
não falar dos banheiros públicos... Digo, a céu aberto. Alguma coisa no
refeitório da Sodexo no bivoac (o nome usado para o acampamento oficial) não
caiu bem aquele dia, pois por todo lado sumiam pilotos atrás das dunas, carros
ou qualquer barreira de um lado só que desse um mínimo de privacidade.
A segunda
parte da prova assistimos de Quillagua, literalmente um Oasis no meio do
deserto e o maior calor que passamos desde o começo da viagem. Nenhum protetor
solar resolvia a ardência com que o sol queimava a pele, o que me fez entender
o esquema de roupas em excesso, e não em falta, dos nômades do deserto. Não dá
pra deixar nada descoberto. Vencidos pelo sol, passamos no único boteco da
região para tomar qualquer coisa que fosse gelada e qualquer coisa que fosse de
comer (note-se que a gente deixa de ser seletivo em algum momento da vida no
deserto) pra ver a Glória Menezes e a Patrícia Pillar debatendo em bom
castelhano dublado em plena televisão chilena. Me ofereci pra contar o final da
história que eu nem assisti para o senhor da vendinha, mas ele não ficou muito
feliz quando eu disse que a vilã só pagaria seus pecados no último capítulo.
Uma coisa importante que aprendemos depois do nono erro (aqui novamente) é que
as garrafas de água de tampa vermelha são sem gás e as de tampa azul são com
gás, o exato oposto do Brasil, o que nos concedeu mais uma garrafa d’água com
gás que não mata a sede como a outra de jeito nenhum.
Como não
conseguiríamos chegar em Iquique e voltar a tempo de pegar nosso ônibus para
Calama na manhã seguinte, acabamos voltando para Tocopilla, uma cidade (não sei
se se encaixa bem na descrição) portuária de pouquíssimas opções de hospedagens
razoáveis, e que ainda tivemos que disputar com 6 cinegrafistas croatas. Assim
acabamos num hotel ruim pacas, comendo um peixe frito no mercado municipal, o
que nos pareceu a opção mais segura, mas ainda assim regado a cerveja para
matar o que viesse junto e fazer backup das fotos antes de cair de cansaço na
cama. Uma coisa não dá pra reclamar: até o hotelzinho mais mequetrefe do
interior do Chile tem internet wi-fi e TV a cabo!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Dia 7 – Antofagasta – chegada do Dakar
Precisamos
rodar uns bons 130 km pra sul de Antofagasta para ver a etapa da prova que
vinha de Copiapó. O lugar escolhido: uma duna antes da chegada no meio de que?
Do nada, é claro, afinal, estamos no deserto. E, neste, caso, diferente de San
Pedro, que fica localizada nas alturas, um deserto dos muuuuito quentes.
Uma coisa
é interessante a respeito do deserto, como ouvi dos próprios chilenos enquanto
esperávamos ali. As terras do deserto são de uso coletivo, todos podem
desfrutar do espaço (que, diga-se é imenso), no entanto, há apenas a concessão
do uso da terra, mas não a propriedade, como é o caso da enfiteuse no Brasil.
Precisaria perguntar melhor, mas acho que escritura só existe nas cidades... O
uso da propriedade e o desfrute do deserto ficou patente quando se estabeleceu
tacitamente que os banheiros estariam localizados à direita dos carros. Esse
negócio de banheiro no meio do deserto ainda seria tema de muito debate pelo
caminho, mas comecei a acreditar que dizia respeito à liberdade (aliada à falta
de estrutura) que o deserto proporciona.
Mal
havíamos acertado nosso acampamento particular, com churrasqueira e carne de
“pavón”, quando uma tempestade-zinha de areia levantou nossa cobertura,
transformou nossa carne numa milanesa sem ovos e quase nos mandou embora para
casa, mas meia duna mais a frente conseguimos nos estabelecer novamente e
esperar os brasileiros terminarem de passar (com direito a bandeira e tudo
mais).
Muito sol
e quinze camadas de protetores diversos depois, voltamos para o acampamento
oficial da prova para acampar em La Portada, onde já havíamos estado dois dias
antes e onde seria a base oficial da prova pelos próximos dias. Terminamos o
churrasco, agora sem milanesa, estreamos a barraca comprada na véspera e fomos
dormir alta madrugada com vista para a cidade toda iluminada e ao som do
gerador de uns argentinos sacanas que ficaram acordados até muito mais tarde
que nós, enquanto debatíamos a possibilidade de afogar Buenos Aires com toda a
água do Rio Paraná.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Dia 6 – Antofagasta (dia de descanso)
Intencionalmente
ou por inércia, acabamos tirando o dia para resolver nossas pendências
logísticas e comerciais, aproveitando que a cidade tinha estrutura para nos
ajudar.
A
passagem de volta entre Calama e Santiago não pode ser mudada, pelo menos não
sem deixar nos cofres da Lan Chile o equivalente a uma nova passagem cada.
Parte
histórica de Antofagasta
A maior
parte do dia foi passada dentro do Mall Plaza, aparentemente uma rede de
shoppings no país, com sentimentos que variavam entre a estupefação, empolgação
e revolta com o tanto que nós somos extorquidos no Brasil. Descontei minhas
frustrações no Taco Bell, que não encontrava havia 15 anos, desde quando ainda
morava na Florida. Entre acessos de consumismo e o novo farnel no supermercado
para os dias que se seguiriam, descobrimos que os chilenos não são, pelo menos
não naquela região, pessoas multi-tarefas. É como estar no Nordeste do país dos
outros (até geograficamente equivalente). Tudo é feito no seu ritmo, sem
pressa, e para nós, paulistanos estressados, isso às vezes pode tirar a
paciência até de um Jô brasileiro...
A cidade e as dunas
A cidade e o mar
A praça central
A noite foi de rearrumação de malas, pizza, mais “cervezas” (note que já havíamos criado um padrão) para levantar acampamento logo cedo e correr atrás do que havíamos ido ali pra fazer: ver o Dakar pelo último ano confirmado na América do sul.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Dia 5 – Hornito, La Portada, Antofagasta
Há
algumas conseqüências óbvias da falta de estrutura em uma praia como Hornito. Algumas
delas só fomos descobrir com o raiar do dia. Pelo que pudemos observar, acampar
é um programa bastante tradicional entre os chilenos, e eles não se contentam
em levar somente o básico. Vimos famílias inteiras com mesas, geladeira,
comemorando aniversários. Algumas tendas pareciam praticamente haréns no meio
do deserto. Algumas tinham subdivisões internas, para que cada membro da
família pudesse montar sua própria barraca. Pelo jeito também, é costume local
levar tudo de casa, porque não se via sequer uma lojinha ou bar aberto, que
dirá um camelô vendendo batata frita, picolé ou o que seja, como nas praias
brasileiras.
Na praia inteira, somente um banheiro coletivo, em condições não lá muito higiênicas... A pergunta que não quis calar, neste ponto, foi “como estas pessoas todas fazem as suas necessidades já que o banheiro coletivo fecha às 9 da noite pra só reabrir no dia seguinte??”. A resposta só veio ao acordar, quando pudemos observar que várias das famílias tinham ao lado da barraca tendas/banheiros, que tive que fotografar por não saber explicar melhor, com vasos provavelmente de plástico, e com o produto sendo despejado aonde??? Exato!
Na praia inteira, somente um banheiro coletivo, em condições não lá muito higiênicas... A pergunta que não quis calar, neste ponto, foi “como estas pessoas todas fazem as suas necessidades já que o banheiro coletivo fecha às 9 da noite pra só reabrir no dia seguinte??”. A resposta só veio ao acordar, quando pudemos observar que várias das famílias tinham ao lado da barraca tendas/banheiros, que tive que fotografar por não saber explicar melhor, com vasos provavelmente de plástico, e com o produto sendo despejado aonde??? Exato!
A idéia
do que havia a alguns centímetros ou metros abaixo dos nossos pés foi
suficiente para desmontarmos o acampamento e seguirmos para o próximo destino.
Por isso,
foi com muita alegria que encontramos pelo caminho La Portada, um monumento ao
sul de Hornito e ao Norte de Antofagasta, onde formações rochosas que devem
datar lá da Pedra Lascada criaram um portal de pedra natural em pleno mar, de
46 mts de altura e 70 mts de largura, onde é proibido acampar, entre outras
coisas. Por ali, além de poucas pessoas, e, novamente, o comércio todo fechado,
apenas uma dúzia de turistas desavisados, gaivotas, pelicanos, alguns leões
marinhos perdidos e nós!
Ficamos
por ali, caminhando entre as formações rochosas, feitas principalmente de
conchas, pelo que pude ver, até que a fome, o cansaço e o sol que queimava até
o pensamento nos arrastasse até Antofagasta.
Sendo a maior
cidade da região, estrutura não foi um problema e depois de uma farta refeição
no restaurante (caro) de uns chineses mal humorados, conseguimos achar um
esquema hoteleiro diferente e perfeito para nós. Alugamos o que achávamos que
seria um quarto para quatro pessoas, mas que para nossa surpresa era um
apartamento inteiro de dois quartos, cozinha e banheiro (com ênfase neste
último detalhe!) e acabamos alocando os seis viajantes por ali.
À noite,
o Festival de Teatro da cidade nos presenteou com a peça Firebirds, do grupo
alemão Titanick, que se locomoveu pelas ruas da cidade, até terminar
pirotécnicamente no pátio da estação ferroviária da área antiga e restaurada da
cidade. Quase um Circo Du Soleil em pleno Deserto.
Um
refresco para os olhos e a alma, comemorado com cerveza Corona, papas
fritas (nossa companhia mais freqüente) e muita risada até as 2 da manhã.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Dia 4 – Salar do Atacama, Peine, Mejillones, Hornito
Até
empacotar a vida toda que estava espalhada pela pousada, já somava quase 11 da
manhã quando nos despedimos de São Pedro. Em vez de fazer a rota padrão de São
Pedro para Calama e então Antofagasta, resolvemos fazer uma rota menos óbvia e
cruzar o Salar pela parte sul a caminho do mar, com uns poucos oásis perdidos à
beira da estrada.
Um
coadjuvante bastante peculiar no deserto são as placas e sinais pelo caminho. É
assim que descobrimos o número de habitantes de um determinado vilarejo e a
altitude em que ele se encontra, dentre outros detalhes pitorescos. Foi assim
que conseguimos descobrir que o vilarejo de Peine tinha pouco mais de 400
habitantes.
Ali há,
além do salar que cerca o lugar, uma formação rochosa que resulta em uma
piscina natural de águas transparentes (e alguma sujeira no fundo, pois a
comunidade usa o lugar para churrascos de domingo, como pudemos presenciar).
O
percurso cruzando o Salar e as minas de cobre pelo caminho foi o maior feito
até então. O que se pode dizer de um percurso cruzando o deserto? A areia muda
de cor, mas é, ainda assim, areia. Não se vê vida animal, vegetal ou humana até
onde os olhos conseguem enxergar, e há horas de distância entre o contato com
um lugar habitado e outro. No meio, somente o nada, que em algumas horas acalma
e em outras desespera.
Uma única
parada estratégica num vilarejo a caminho de Antofagasta e alguns sorvetes
depois foi com grande alívio que em duas horas, lá pelas 6 da tarde, enxergamos
o mar. Ao invés de rumar diretamente para Antofagasta, resolvemos seguir para
Mejillones, um balneário 65 km mais ao norte. Mal lembramos que era fim de
domingo, pós feriado de ano novo, e não se via nada aberto na cidade, além do
posto de gasolina e do banheiro público, sempre a 200 pesos por cabeça.
Marcadores:
Atacama,
Chile,
Hornito,
Mejillones,
Salar do Atacama
domingo, 3 de janeiro de 2010
Dia 3 – San Pedro (Geisers Del Tatio, Termas de Puritama, Machuca, Calama)
No
deserto do Atacama, a altitude é um personagem dotado de características
próprias. Durante o dia e dependendo dos passeios, você poderá variar dos 2400
mts da cidade até algo em torno de 4600 a caminho dos geisers. As sensações pro
organismos desacostumados são das mais variadas, mas as mais comuns são falta
de ar, náusea e dor de cabeça. Eu já tinha experimentado trabalhar a 3200 mts
em Bogotá antes, então sabia que o que me esperava eram alguns dias sem fôlego
pra subir nem ao menos três degraus seguidos...
Por este
motivo e pelo frio de -9° C que nos esperava nos geisers (que funcionam
unicamente ao nascer do sol, por isso o horário esdrúxulo para observá-los) que
resolvi me juntar à metade da nossa turma que resolveu não ir. Eu já havia
conhecido o Old Faithful, no Parque Yellowstone, anos antes, então minha
curiosidade geológica já estava mais do que satisfeita. Assim, só posso
transcrever que os que foram deixaram claro que NUNCA passaram tanto frio na
vida.
Seguimos mais tarde para encontra-los diretamente nas Termas de Puritama, um conjunto de piscinas de água quente formadas naturalmente no cair de um rio, com uma estrutura bem organizada para receber os turistas que são despejados ali van atrás de van das 8:30 da manhã às 17:30 diariamente.
Seguimos mais tarde para encontra-los diretamente nas Termas de Puritama, um conjunto de piscinas de água quente formadas naturalmente no cair de um rio, com uma estrutura bem organizada para receber os turistas que são despejados ali van atrás de van das 8:30 da manhã às 17:30 diariamente.
O preço,
mais salgado que os demais passeios ( 10.000 pesos), vale cada centavo depois
que você encontra uma piscina de água quente e totalmente cristalina pra chamar
de sua. Por isso, não vimos passar as 3 horas que ficamos por ali e só fomos
sentir o estrago do sol bem mais tarde, pois o vento congelante que nos espera
fora d’água não nos deixa perceber que nem todo o protetor solar do mundo salva
de uma pelada dessas.
Uma
curiosidade deste lugar é que os banheiros não têm clarabóias, e sim um buraco
no teto, já que nunca chove por ali.
Com
alguma relutância dos que já haviam passado por Machuca mais cedo e encontrado
tudo fechado, rumamos para este vilarejo 30 km mais a frente das Termas, no
caminho dos geisers para experimentar um churrasquinho de llama que servem por
ali. Eu sei, elas são bonitinhas, mas ali estando.... O vilarejo tem 40 módicos
habitantes, e fica a aproximadamente 4000 mts, com picos de 4200 mts pelo
caminho. Eu, que não havia passado até então dos 3500 mts senti pela primeira
vez náusea e dor-de-cabeça conforme subíamos. A falta de ar somente fazia com
que eu considerasse seriamente a hipótese de abrir a boca pra falar, já que não
dava pra fazer isso e também respirar. Por isso, preciso confessar que foi com
certo alívio que chegamos a Machuca com tudo fechado e enfrentei novamente
calada o caminho até os deliciosos 2400 mts da cidade.
Banho
rápido, um almoço corrido na agora já conhecida Casa de Piedra e rumamos no fim
da tarde para Calama, para devolver o carro alugado e nos abastecer de dinheiro
e mantimentos no supermercado e shopping da cidade. Dali em diante, seguiríamos
num dos carros da turma, o que já estávamos fazendo desde a chegada, e que
tornou o aluguel completamente desnecessário. Depois das dez, com a cidade
fechada e as calçadas recolhidas em pleno sábado, a solução foi rumar de volta
para São Pedro e jantar à meia noite do estoque dos mantimentos comprados e ir
pra cama para poder levantar acampamento assim que o sol raiasse.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Dia 2 – San Pedro (Cejar e Licancabur)
Depois da
epopéia do dia anterior, resolvemos por livre e espontânea inércia não nos
mexer até depois do meio dia. Arrastei algumas coisas do armário para um
solário muito bonitinho que ficava ao lado do rio, dentro do próprio hotel e
tomei café da manhã escrevendo o episódio da véspera. Como não havia pão
disponível na cidade ou qualquer lugar aberto onde se pudesse encontrá-lo, o
negócio foi reciclar os da véspera junto com os mantimentos que felizmente
havíamos trazido de Calama, e mais um restô da ceia. Como não conseguíamos
chegar a um consenso a respeito do itinerário dos próximos dias, resolvemos
focar no dia atual antes que ele acabasse. Com um mapa na mão seguimos para a
Laguna de Cejar e Pietra, que não sei por que em todos os guias que encontramos,
é mencionada como Cejas, com “s” no final...
As lagoas
são, em outras palavras, buracos d’água cristalina que brota não sei de onde,
mas que devido ao alto teor salino é impossível de se afundar. Mesmo que você
não queira, você vai boiar! Portanto, o mais difícil mesmo é ficar em pé na
água, porque os joelhos e pés sobem involuntariamente a todo instante. Outra
curiosidade é que devido a este teor salino, qualquer nadador que ali adentre
sai da água praticamente como uma picanha pronta pra churrasqueira. Fazendo o
cálculo de sal no corpo mais sol do deserto, não é recomendável que se passe
muito tempo por ali depois de sair da água, considerando que a única sombra que
você vai achar é a do seu próprio carro e a prainha ao redor das Lagunas é
feita de... sal, é claro! Ainda assim, a visita vale cada grama de sódio que
ficará grudada em seu corpo até você voltar para a civilização, com suas roupas
pinicando por conta dos pelos duros de sal que se enroscarão nela!
Devidamente salgados, tentamos várias rotas para chegar mais próximos do Vulcão Licancabur, aparentemente inativo, mas de uma rara beleza que pode ser vista de vários pontos da cidade. Depois de uns dois “nãos” por rotas proibidas, seja pelo perigo da altitude ou falta de segurança na estrada fechada e uma proposta indecente de pessoas locais para vendermos nosso combustível, chegamos aos pés do vulcão a 3250 mts de altitude, já nem passando tão mal assim, considerando o tempo de adaptação. Ao lado do vulcão um cânion de aproximadamente 20 mts de profundidade completa a paisagem de tirar o fôlego (considerando a altitude, às vezes literalmente).
Muitas
fotos depois, rumamos de volta a cidade já às 19 hrs, mas com sol ainda alto no
céu, pra descobrir que o único posto de gasolina da cidade estava fechado por
falta de combustível (!!!). Coisas de se esperar numa cidade deste tamanho,
ainda que com tantos turistas motorizados por ali. Finalmente entendemos a
proposta dos mocinhos da beira da estrada, mas como ainda não estávamos na
reserva, rumamos para o hotel para o que devia encerrar a agenda de passeios do
dia. Mas... Depois de muito debate sobre onde havia ido parar o jeans e o soft
que eu havia colocado na mochila, descobrimos para meu muito contentamento, que
eles haviam caído da dita cuja que foi carregada aberta enquanto íamos embora
da laguna (com direito a fotos e testemunha, para contestar o argumento de que
eu não havia colocado roupa alguma ali). Com o sol já baixando rumamos de volta
para o salar/laguna, que diga-se, não é tão próximo assim, num carro popular
alugado e adentrando o deserto em pleno cair do dia. Na entrada da Laguna havia
um posto de guarda, então se estivesse por ali, eles deveriam saber informar.
No entanto, nos esquecemos de vários itens básicos depois da discussão acalorada
sobre as duas peças de roupa: primeiramente o juízo, de sair àquela hora pro
meio do deserto, apesar de ser um caminho reto, a maior parte de asfalto, sem
celular ou qualquer meio de comunicação que o valesse, num horário em que quase
certeza tudo ali já estava fechado. Me arrependi várias vezes no caminho, mas
foi difícil convencer o marido a voltar depois que ele já havia entrado no
trecho “trilha” do resgate. A trilha sonora era apenas a respiração ofegante
dos dois e um silêncio monumental, uma vez que no rádio só tocava salsa, e o
ritmo não cai muito bem em rotas de perseguição... Chegamos lá com tudo
fechado, nenhuma alma a uma distância de quilômetros, porém para meu choque e
estupefação de brasileira, que conhece bem o país onde mora, minhas roupas
estavam dobradinhas em uma pedra ao lado do posto de controle, aonde alguém
havia deixado para que a dona as encontrasse. Sem tempo ou caneta para deixar
uma nota de agradecimento e agora com noção do perigo, rumamos voando com um
resto de sol se pondo por trás das montanhas e o Licancabur, muitas vezes
durante o dia chamado de Nabucodonosor ou Tutancâmon, de testemunha.
Às 21
horas cravadas, a hora do pôr-do-sol por aqui, estávamos de volta ao quartel
general para compartilhar um estrogonofe improvisado que foi comido como o
seria na Nigéria, considerando que não havíamos tido nenhuma refeição quente
desde o almoço do dia anterior.
Juntadas a digestão da comilança e mais o descarrego coletivo e intenso acontecido na tarde, às 23 já havíamos mudado de idéia quanto a passear no centro da cidade e cada um caiu para o seu canto para acordar às 4 do dia seguinte e ver os gêisers ao amanhecer.
Juntadas a digestão da comilança e mais o descarrego coletivo e intenso acontecido na tarde, às 23 já havíamos mudado de idéia quanto a passear no centro da cidade e cada um caiu para o seu canto para acordar às 4 do dia seguinte e ver os gêisers ao amanhecer.
Assinar:
Postagens (Atom)


















































