17/07/2012
Amanhece no Jalapão
Impossível dormir até muito além
das 6 e pouco acampando e apesar da secura e calor, a noite foi fria e cheia de
orvalho, o que pegou muitos de nós de surpresa, a procura de cobertores
escondidos desde o Paraná no meio da madrugada.
A princípio o café da manhã seria
individual para cada família, mas como tudo num ambiente coletivo acabou
virando refeição comunitária.
Alguns foram cuidar do banho não
tomado na véspera. A Maria Clara, que estava esperando pelo banho de rio desde
a chegada mal tomou café, me arrastando pro rio de onde víamos da margem peixes
de vários tamanhos a olho nu. Descobrimos também a olho nu um cacho de
marimbondos do tamanho de uma pessoa embaixo da ponte, o que explicou os
visitantes inusitados da véspera.

Ali conhecemos a simpática
Leonidia Coelho, da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Tocantins, que
havia nos pedido carona para São Felix na véspera e também havia dormido no
posto fiscal. Graças às informações passadas por ela, acabamos mudando nosso
roteiro e decidimos rumar diretamente para Mateiros, por uma série de motivos.
Primeiro, montar e desmontar acampamento todo dia seria inviável com uma
estrutura tão grande. Precisaríamos achar um lugar base para deixar a maior
parte dos mantimentos e seguir um pouco mais leves entre um lugar e outro. Segundo,
a maior parte das atrações do parque ficavam entre Mateiros e São Felix ou mais
perto de Mateiros que qualquer outro lugar. Terceiro, que ali se concentrava a
maior parte das comunidades carentes da região, a maior parte quilombolas e
indígenas, para quem havíamos trazido materiais escolares e mantimentos.
Ficou acordado também que
daríamos o recado às comunidades a respeito dos mantimentos encalhados no
caminhão que passou a noite conosco no Rio do Sono. Isto porque as condições da
estrada estavam bastante transitáveis perto do que se diz a respeito da época
das chuvas...
E assim, de casa nas costas
novamente e um plano razoavelmente estruturado, seguimos rumo a São Felix para
abastecimento para rumar para Mateiros.
No caminho, outros dois caminhões
atolados. O primeiro, de mudança, saiu do buraco com a ajuda de alguns membros
da expedição. Para o segundo, com 15 toneladas de carga, pudemos apenas desejar
boa sorte e seguir viagem, sabendo depois que o socorro havia sido
providenciado.
A paisagem muitas vezes se
assemelha à savana africana, porém com um toque brasileiro pincelado na
paisagem pelos buritis e o capim dourado.
Como chegamos a São Felix em
pleno horário de almoço, o posto de gasolina estava fechado (!). Mas não só o
posto de gasolina, como a agência dos Correios, e mesmo alguns restaurantes da
praia do Alecrim... Perguntaram se queríamos que chamassem o dono do posto, mas
escolhemos fazer um piquenique rápido na praia do Fervedouro local e matar o calor na água, tão cristalina e de
temperatura agradável quanto o rio de onde acabávamos de sair. Para os que
aportarem por lá, fica o dado curioso de ali terem filmado recentemente
uma série de cenas do filme Xingu.
Outro capítulo à parte, desta vez
dos melhores, eram as crianças, principalmente os 2 mais velhos, Artur e Maria
Clara. Da extinção dos dinossauros até o que aconteceria se eles se perdessem
dos pais e tivessem que virar crianças de rua, rolou de tudo. Tudo digno de
registro e conversado com uma propriedade de conhecimento que a idade com
certeza nos tira!
Seguimos caminho para Mateiros
novamente abastecidos, banhados, com o porém de ser extremamente complicado
chegar ao destino no tempo planejado. Não pelas condições da estrada, que
estavam muito melhores que a primeira parte do dia, mas porque há tantos rios,
e tão lindos que é quase impossível o apelo de parar e pular ali um pouco para
se refrescar! Fizemos isso umas três vezes antes da nossa chegada e valeu cada
grãozinho de areia branca no meio dos dedos.
As crianças a estas alturas já
bradavam adjetivos como “demais” e “show de bola” a cada parada, realmente
valendo nosso dia.
A princípio a ideia era ficar
baseado em um sítio de um senhor de Palmas que havia conversado conosco no
começo da viagem, porém o terreno íngreme, o rio cercado de barrancos com uma
ponte pênsil sobre ele (mais para um balanço que uma ponte na opinião de
alguns) tornou inviável nossa estada por lá, pois os mantimentos e carros teriam que ficar de um lado e o acampamento de outro.
Dali tínhamos algumas opções de
camping ou um tiro no escuro, que acabou sendo a melhor opção. Seguimos rumo a Mateiros
novamente e entramos rumo ao Fervedouro dos Buritis para ver a situação do
lugar e saber se era possível acampar por ali.
A propriedade, que a princípio
também achamos ser parte das comunidades quilombolas da região, na verdade era
uma propriedade particular e assim acertamos com o Sr. Lino nossa estada pelos
próximos dois dias. Ali teríamos não só um terreno amplo e uma estrutura de
aproximadamente 50m2 para montar a cozinha e desovar os mantimentos do carro,
mas também “nosso próprio” fervedouro à disposição 24 hrs.
De cara, o tom brilhante do capim
dourado chamou a atenção e acabamos comprando praticamente metade do estoque de
artesanato que a família tinha disponível.
A curiosidade foi recíproca e a
família e seus visitantes sentaram para assistir nosso grupo armar um circo
completamente desproporcional à realidade simples, sem luz, água encanada,
esgoto ou qualquer estrutura além da casa mal terminada de adobe e chão de
areia e duas outras tenda abertas, as três cobertas de folhas de buriti.
Em pouco tempo dona Diva havia nos acolhido em sua propriedade e assuntando com a família descobrimos que ali todos viviam do artesanato do capim dourado, como praticamente toda a região. Também descobrimos que há uma fiscalização extensa por parte da Naturatins (o
Instituto Natureza do Tocantins), que desde 89 promove o estudo, a pesquisa e a experimentação no campo da proteção e controle ambiental e da utilização racional dos recursos ambientais, evitando que haja contrabando e mesmo escassez de matéria prima disponível para o trabalho dos artesãos.
Pudemos perceber que apesar de simples, as famílias são bem informadas e treinadas pelos agentes comunitários para que o capim dourado possa gerar mais renda para as comunidades da região. Depois fiquei sabendo com um guia que eu conheci que mesmo a Naturatins é bastante carente de recursos, porém os funcionários são realmente empenhados e acreditam no trabalho de preservação da região, por isso acabam compensando as dificuldades com a paixão pelo trabalho feito.
Descobrimos também que apesar de não ter luz, banheiro ou água encanada todos tinham celular, o que não deixou de parecer um tanto irônico... Em vários momentos e conversas acabei questionando o que era falta de recurso e o que era cultural dentre as muitas constatações que tivemos.
Fizemos um risoto de tudo e mais um pouco, oferecendo à família que assistia curiosa ao nosso excesso de acessórios e rumamos para o fervedouro particular da família, aberto ao público como todos os outros por R$ 5,00, para tomar o último banho do dia.
Indescritível talvez fosse a
palavra mais próxima para descrever o lugar. Imagine uma banheira gigante de
areia branca, muito branca e água a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e transparente, com
uns tantos peixinhos nadando pra lá e pra cá e uma fonte constante de bolhas
que sobem da areia e que além de não deixar que a pessoa afunde, ainda dá a
sensação de que o chão está explodindo em pequenas bolinhas, legal pra caramba
depois que você acostuma com o borbulho todo. Difícil mesmo é sair de lá, com
água quentinha a uns 30 graus e um céu ridiculamente estrelado acima.
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| Fervedouro de dia |
Dormi em 5 segundos grata pelo
dia, pela vida, pela oportunidade!