Dia 1 – Santiago – Calama –
San Pedro de Atacama, or the Day that wouldn’t end
O dia um
na verdade coincidiu com o dia 31 de dezembro. Saímos às 5 da manhã de Santiago
para um vôo de duas horas até Calama.
Não acho
que seria possível ter noção da dimensão do Atacama não fosse este vôo no nosso
caminho. De um lado o Pacífico, do outro a Cordilheira e no meio... Nada! Ou
quase nada... Ocasionalmente uma casinha ou uma pequena cidade aparecia fora da
costa. Sendo conhecido como o deserto mais árido do mundo, não havia uma única
nuvem que nos impedisse de ver a lua cheia se por no Pacífico enquanto por
detrás da cordilheira vinha subindo o sol em pleno vapor.
Descer em
Calama foi a primeira experiência surreal dentro das muitas que se seguiriam
pelo dia. Além da pista propriamente dita por onde o avião desce e tem que
taxiar, todo o resto do aeroporto é feito de ... areia!! Sendo um aeroporto
pequeno, depois de descer, o avião faz meia volta pela mesma pista por onde
veio e segue até a área de desembarque. A recepção, às 7:30 da manhã foi feita
em forma de ventos que trincavam até o último osso do dedinho do pé e
declarados 6° C, ainda que eu tivesse certeza que se tratasse de muuuuito
menos. Pela única esteira do aeroporto todos os passageiros foram pegando suas
malas, enquanto esperávamos sentados até que sobrássemos somente nós e algum
grilo desavisado aguardando pelo mocinho que deveria nos entregar o carro
alugado. Como a cidade é pequena, os agentes das empresas de aluguel de carro
não fazem plantão no aeroporto, nem em pleno 31 de dezembro, principalmente
porque todos os carros disponíveis na cidade já haviam sido locados. Contamos,
pra nossa felicidade, com a ajuda dos 2 únicos agentes que estavam por ali pra
ligar pro celular da pessoa responsável e apressá-la a chegar.
Lá fomos
nós com nosso mais novo Toyotinha, procurar um mercado pra nos abastecer antes
de seguir pra São Pedro, considerando que dados os últimos imprevistos, se nada
mais desse certo, pelo menos teríamos o que comer até a noite.
Se
pudesse descrever Calama, seria algo como uma Dubai de classe média. Um oásis
no meio do deserto, e ainda assim com uma estrutura comercial bastante sólida.
Pelo menos para viajantes de emergência como nós. Encontramos um bom
supermercado e um shopping Center que equivaleria a qualquer um de São Paulo,
compramos nosso café da manhã, um colchão inflável e dois sacos de dormir e
partimos para São Pedro para encontrar nossos companheiros de viagem que vinham
do Brasil até nosso ponto de encontro de carro. Nosso tempo de férias, porém,
não permitiu que fizéssemos o mesmo.
No nosso
caminho... deserto. Nenhuma novidade, considerando que já sabíamos onde
estávamos nos metendo. Porém, pra quem nunca esteve em um deserto antes (eu já
estive no Novo México, mas numa experiência totalmente diferente que não conta
pontos aqui) não se tem idéia da dimensão do dito cujo até que se esteja lá no
meio. Ele não termina nunca, e assim fomos acompanhados de dunas, erosões e
outras modalidades de amontoar areia até nosso destino.
São Pedro
do Atacama é uma cidade pitoresca (e acredito que neste caso, a palavra
“pitoresca” tenha tido sua melhor utilização desde que eu a descobri na
adolescência) de 1958 habitantes no meio do deserto. É uma São Tomé das Letras,
que ao invés de ter sido contruída com pedras São Tomé, foi construída em
adobe, no secume sem fim característico da região. As ruas são de areia e na
rua principal, a Calle Caracoles, não se pode passar de carro. Assim, os
turistas, que se apinham por ali vindos de todas as partes do mundo (mas naquele
dado momento no tempo, principalmente do Brasil) caminham livremente por entre
as lojas, e as tantas agências de turismo que pipocam por ali. Para uma cidade
deste tamanho, a estrutura turística é incrivelmente organizada e há ótimas
opções de restaurantes com atendimento bastante simpático. Como nossos
companheiros estavam atrasados na chegada, achamos um canto bem bonitinho pra
comer num restaurante chamado Casa de Piedra para fazer nossa primeira refeição
que não saísse de um carrinho de aeromoça ou uma sacola de supermercado.
Enquanto
comíamos os funcionários do restaurante aprontavam um globo de discoteca que
seria usado na festa de ano novo, mais tarde, junto com jogos de luzes
coloridas que contrastavam drasticamente com as paredes de adobe e a cobertura
de palha vazada que deixava um pouco da luz do sol do deserto entrar naquele
espaço.
Foi com
muita sorte, portanto, em pleno dia 31 de dezembro lotado de turistas, sem
reservas de hotel, que achamos no 14º hotel, hostal ou camping, um chalé pra
quatro pessoas, que convencemos a dona a alugar para nós seis. Nosso oásis
particular àquelas alturas tinha dois quartos, uma cozinha e um banheiro com
água quente. Tudo muito bonitinho e arrumado. Pegamos sem pestanejar.
Na cidade
você achará opções que vão de campings de 7 reais por pessoa, até hotéis de 600
reais a diária, mas independente da sua opção de hospedagem, a não ser que você
tenha ido até ali para ver a natureza única que circunda a cidade, não há muito
mais que se fazer numa cidade de adobe e areia.
Assim,
devidamente alojados no nosso cantinho, e depois de um cochilo de 2 horas, que
seria o único sono que havíamos visto naquela jornada que já durava 32 horas,
mas que ainda duraria mais 12, fomos para o Vale da Lua ver o último pôr-do-sol
de 2009.
O Vale da
Lua fica localizado 15 km para fora da cidade e tem este nome porque a natureza
dali e da lua são algo muito próximo. A natureza do terreno faz parecer que
você não está neste planeta, e sim em outro, como na Lua, em Marte, ou qualquer
outro lugar aparentemente árido que você já tenha estudado na escola. Também
como na lua, e segundo a guia do local, nada cresce e nada vive ali, nem
animais peçonhentos ou inseto que se preze. Devidamente expulsos dali às 8 em
ponto, por não haver luz que te guie para fora dali depois deste horário e cair
em alguma daquelas crateras deve doer muito, paramos na descida da volta para
ver a lua cheia nascer redonda e amarela por detrás do vulcão Licancabur, toda
cheia de si, como toda lua que sabe ser a melhor coisa naquela hora da noite no
meio do nada.
Como o
dia não terminava, mas o ano sim, preparamos nossa ceia mais frugal desde que
eu me conheço por gente que passa a meia noite acordada no ano novo. Queijo,
uvas, abacaxi, melão, alguns pãezinhos e salame compunham a nossa ceia, junto
com uma champagne que havíamos comprado no caminho em Calama, vinho, uísque e
algumas outras opções etílicas. Resolvemos por celebrar duas vezes: às 11
horas, quando escrevemos e ligamos para os parentes no Brasil que já colocavam
o pé direito no ano novo e depois novamente à meia noite local, junto com os
outros chilenos e gringos que por ali se juntavam.
Para uma
cidade deste tamanho a balada é algo mais próximo à Ibiza do que eu esperaria.
Portanto, na rua principal, portinha após portinha anunciava naquela noite a
sua festa particular. Acabamos entrando em uma cuja adesão não era cobrada. Já
não devia me espantar a essas alturas quanto entre as salsas locais e as
músicas eletrônicas que pontuam qualquer balada, espremeram nossa cultura mais
rica, com o Melô do Jacaré ou o Bonde do Tigrão. Mas, como balada é balada e eu
não estava muito crítica depois das já 42 horas tocando direto, conseguimos
improvisar até alguma coreografia, que apontava os dedos para cada brasileiro que
estivesse presente naquele espaço.
Foi assim
que, aos 44 (horas) do segundo tempo e a pé, tomamos um banho quente e nos
rendemos à cama. Não é necessário dizer que tudo isso foi feito a algo em torno
de 2400 a 2800 mts de altitude e portanto foi sentido como se as 44 horas na
verdade tivessem sido 88. Mas que cada uma delas valeu mesmo que tivessem sido
120!







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