quarta-feira, 25 de julho de 2012

Expedição Jalapão – dia 3


18/07/2012

Mumbuca, Formiga e redondezas

Acordamos cedo, com a ideia de rumar após o café da manhã para a Cachoeira do Formiga (rio Formiga e não inseto, rs), uma queda d’água que acaba em uma piscina mais transparente que a sua garrafa de água mineral.
Porém decidimos primeiramente resolver a questão dos materiais para as comunidades e rumamos para Mumbuca, uma comunidade que por si só renderia um livro. Ali fomos instruídos de procurar D. Laurita, a líder comunitária, para falar sobre os materiais que trouxemos e deixar os recados da Leo. Porém como ela não estava, acabamos encontrando duas outras representantes, D. Santinha e Josi, que começaram a nos explicar um pouco sobre o lugar até D. Laurita chegar.
Procurando nos registros turísticos você verá que o Mumbuca é um antigo povoado quilombola, mas isto é um resumo muito pequeno da história que D. Santinha, D. Laurita e a Márcia, agente de saúde do povoado, me contaram e que tento reproduzir o mais fielmente possível: o primeiro negro fugido da Bahia a chegar por aquelas bandas foi o bisavô de D. Laurita, em 1805. Lá ele encontrou uma tribo indígena, onde conheceu a esposa, índia, com quem começaria a “povoar” o lugar. Negros, índios e brancos foram se misturando, e hoje, nas palavras de D. Laurita, há gente de todos os tons de cores e tipos de cabelo vivendo ali, totalizando os cerca de 160 habitantes  locais, todos parentes, todos próximos, incluindo até a última criança, o que pode ser visto na árvore genealógica na lojinha de artesanato.
O ouro de Mumbuca é o Capim Dourado e o capricho na execução das peças feitas com o material, e costurado com a seda do buriti, dispensa qualquer apelo comercial. A comunidade é carente, sim, há falta de recursos diversos como eles mesmos ressaltaram, mas a beleza está no coração, na simpatia das pessoas e na riqueza das peças de capim dourado. Difícil é não querer levar tudo, mas como eu já tinha arrecadado quase toda a produção da D. Diva no nosso acampamento e precisava fazer os registros históricos, me contive e deixei com que o resto da expedição, de quem eu havia privado a produção do dia anterior, pudesse aproveitar as compras.
Aproveitei a presença providencial de um orelhão para ligar para casa e ver se estava tudo bem com o filhote. Na fila acabei me sentando ao lado de D. Laurentina, uma das matriarcas do povoado, cuja liderança é majoritariamente feminina, completamente lúcida dentre seus 88 anos, poucos dentes na boca que eu houvesse constatado, e uma curiosidade de menina, perguntando o que tanto eu escrevia no caderninho que eu carregava comigo.
Só a deixei para ligar pra casa e saber o que eu já imaginava: filhote ótimo e um frio desanimador de voltar pra casa, frente aos 35° C médios da região.
A simpatia, solicitude, acolhimento das pessoas dali, nos servindo café e apresentando as crianças cantando na nossa saída, é algo difícil de superar e apesar de termos levado donativos para as crianças, quem acabou saindo de lá com uma sensação de gratidão imensa fomos nós mesmos.
O que constatei aos poucos, conforme os dias e as cidades passavam é que há sinal de celular em todas as cidades da região, porém muitas vezes só pega Vivo, o que representa para os assinantes de outras operadoras um roaming tão caro quanto a gasolina, modicamente vendida a R$ 3,50.  
Dali partimos para a Cachoeira do Formiga finalmente, para refrescar os miolos, porém além disso descobrimos que estávamos entrando na rota CVC do cerrado. Há muitas agências de turismo ecológico e muitos turistas, alguns nem tão turistas assim, como biólogos e engenheiros florestais que encontramos por ali. O lugar é realmente lindo e acabamos fazendo nosso piquenique de almoço ali, apesar de ser possível encomendar uma galinha caipira numa casa ali ao lado para saborear ao fim do banho delicioso de cachoeira.
Não podíamos fechar o passeio pela região sem visitar o Fervedouro principal, na mesma estrada da Mumbuca, onde se chega a outra piscina de água morna e água branca cercada por um bananal, uma cena realmente fascinante, onde as crianças brincaram tão ensandecidamente que julgávamos que eles não chegariam acordados à próxima pedrinha no caminho.

A galinha capira que fugira do prato do almoço apareceu na panela do jantar, já de volta aos Buritis, onde tive a oportunidade de conversar mais tempo com a filha do Sr. Lino, que me contou um pouco mais sobre o local. O fervedouro, agora apelidado pelas crianças de "rio Cosquinha" por conta das bolhas de ar que sobem da areia, foi nossa Jacuzzi por três dias, e a noite após esvaziar os pratos cheios pela fome, o sono veio cedo e foi tão ruidoso quanto as noites anteriores...

2 comentários:

  1. Eita CVC, está em todos os cantos "do mundo"! Acho bom não ...

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  2. O "CVC" na verdade é modo de dizer. É que ali só de x4, mas tem muitos grupos como o nosso andando por ali, e onde só cabem 6 de cada vez num fervedouro, vira uma fila...

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